Reportagem: Oi Internet   (10/04/2006)


 

Arthur é enterrado no Rio. Família critica sistema de transplantes
 

Coração do bebê não tinha ventrículo esquerdo e a aorta era muito fina, por isso dependia de um transplante

SÃO PAULO - Quando compraram o móbile colorido para o filho, em comemoração ao seu quarto mês de vida, Rafael Paim, 29 anos, e Beatriz Schlobach, 31, ainda tinham esperanças de encontrar um doador de coração para o filho Arthur. Por isso, quando ele morreu, às 15h30 de domingo, de falência múltipla de órgãos, no Hospital das Clínicas, em São Paulo, o casal decidiu que o presente iria junto com o bebê. A cena comoveu as cerca de 100 pessoas que acompanharam o enterro hoje, no Cemitério do Caju, no Rio.

O coração de Arthur não tinha ventrículo esquerdo e a aorta era muito fina, por isso dependia de um transplante. Durante o enterro, alguns vestiam a camiseta da campanha Doeação, lançada por Rafael e Beatriz quando Arthur tinha 22 dias. A importância da doação de órgãos foi lembrada também, em discurso, por um amigo da família, e em folhetos com a reprodução de uma carta escrita por Rafael, em 15 de janeiro, distribuídos na cerimônia.

No texto, Rafael fazia um apelo à sociedade, profissionais de saúde em particular, para ajudar a reduzir a subnotificação de morte encefálica, requisito essencial para a realização de um transplante. E chamava atenção para a desinformação dos médicos em relação ao uso de órgãos de bebês anencéfalos (anomalia que impede a formação total do cérebro). Foi a mobilização dele que permitiu a autorização inédita, dada, em dezembro, pelo Ministério da Saúde, abrindo uma nova possibilidade para todos que venham a precisar de um doador anencéfalo.

"Eu estou sentindo muita falta dele", disse, emocionado, Rafael. Assim como o fez várias outras vezes, nos últimos cinco meses, ele contou mais um caso que, se resolvido a tempo, poderia ter garantido a vida de Arthur. Desta vez, ocorrido em Mogi das Cruzes, após a queda de um bebê, no último dia 23. A morte encefálica ocorreu dia 27, mas, até o dia 31, ainda havia obstáculos burocráticos para o transplante. "O bebê era compatível. Estava tudo certo, mas, uma vez mais, impediram a doação", lamentou o pai.

Arthur estava internado no Hospital das Clínicas, desde o dia 7 de março. A transferência do Rio para São Paulo foi uma decisão difícil, pois a família queria acompanhar mais de perto o estado de saúde do bebê. No entanto, os pais acreditavam que seria mais fácil conseguir um doador em São Paulo, além disso, não queriam correr o risco de enfrentar problemas de transporte, caso encontrassem um órgão compatível, pois já se sabia que o transplante seria feito no Instituto do Coração. "Pensei que, por ser um estado muito maior, seria mais fácil", disse Rafael.

Segundo ele, o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), administrado pelo Ministério da Saúde, precisa de modificações. "Do jeito que é hoje não funciona", afirmou, citando a taxa oficial de subnotificação no País, que é de 53%, segundo dados de 2004. "As ONGs dizem que é um número muito maior, ultrapassa os 70%", afirmou, sugerindo que o sistema público tenha uma parceria da iniciativa privada para ter mais eficácia.

Coordenador do SNT, Roberto Schlindwein explicou que, pela legislação, parcerias com hospitais privados já estão previstas. Perguntado sobre a deficiência na notificação de morte encefálica, afirmou que o Brasil é um País grande, mas, ainda assim, o sistema é muito bem estruturado. "Estamos fazendo o nosso trabalho, baseado no sistema espanhol, que é modelo para o mundo inteiro", declarou, detalhando que, nos próximos dias, será editada uma portaria regulamentando a função dos coordenadores intra-hospitalares, responsáveis pelo contato com os familiares dos possíveis doadores.

 

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