Reportagem: JB on line  (07/12/2005)


 

Doação envolve polêmica
Mesmo com autorização da família, legislação exclui anencéfalos


O pequeno Arthur de Blauth Schlobach Santos, que completa hoje 21 dias, nasceu com um problema grave no coração, uma hipoplasia - redução acentuada dos movimentos do lado esquerdo do coração. Se não receber um transplante, o bebê pode morrer daqui a seis meses ou um ano, correndo ainda o risco de pegar uma infecção hospitalar durante a espera, comum em quem precisa respirar através de aparelhos.

Os pais, Rafael Paim Cunha Santos, de 29 anos, e Beatriz Blauth Schlobach, de 31 anos, empreendem uma campanha para estimular a doação de órgãos no Brasil. Mas a proposta envolve um ponto polêmico: a mudança na legislação referente aos anencéfalos.

Conseguir um doador de coração para o menino é muito difícil, afirma Rosa Célia, cardiologista infantil do hospital Pró-Cardíaco, onde está internado:

- Uma criança com morte cerebral nessa idade é algo muito raro. Tem que ter sofrido um acidente ou ser um anencéfalo [feto que se desenvolve sem cérebro]. Mas nesse caso a lei não permite que a mãe decida fazer a doação dos órgão de seu filho - explica ao JB a médica.

Arthur, que teve o problema diagnosticado quando estava em gestação, pode receber um coração apenas de alguém com até três vezes o seu peso.

- Gostaria de conseguir que as famílias dos anencéfalos tenham o direito de salvar outras vidas - declara Paim. - No caso do Arthur, não dá tempo que a legislação mude, mas assim poderia ajudar outras pessoas no futuro. Mas se uma família declarar que quer fazer a doação, posso entrar com um pedido para que um juiz autorize a cirurgia, e salvar meu filho - acrescenta.

Um bebê que nasce sem cérebro, segundo Rosa Célia, vive no máximo três meses e o aborto não é permitido por lei.

Arthur, já foi submetido a dois procedimentos cirúrgicos. Foi colocado um stent em seu coração (uma espécie de mola, de dimensões mínimas, que mantém o canal arterial aberto) e outra para retirar fluxo do pulmão. Segundo Paim, o quadro geral do menino se mantém estável:

- Mas nada disso adianta se ele não receber um coração - realça.

O pai do menino, que já criou um site para a campanha ( www.doeação.com.br) ressalta que pretende fazer com que a doação de órgão passe a fazer parte da cultura brasileira.

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